O Anjo da História



SINOPSE:

Um vendedor ambulante e seu ajudante chegam a uma pequena cidade que parece estar parada nos anos 50. O vendedor começa a ter premonições de que o mundo está prestes a terminar. Os habitantes locais pensam, pelos hábitos incomuns do visitante, que ele é um cineasta vindo da cidade grande e que ele está lá para a realização de um filme. O visitante anuncia a proximidade de um dilúvio que levaria o mundo ao seu fim e convoca a população a que ser reúnam no ponto mais alto da cidade para que possam ter tempo de registrar em imagens as últimas cenas do mundo como o conhecemos e, deste modo, escaparem de uma destruição total (as imagens guardariam, registrariam a vida das pessoas). No entanto, as suas palavras são entendidas pelos habitantes locais da maneira como melhor lhes convém e, sendo assim, todos ajudam-no a arrumar as coisas para a produção do filme como se todos fossem tornar-se astros de cinema.
No fim de alguns dias não chega a chuva intensa prevista por Akfak e muito menos o fim do mundo acontece. A população que aguardava ansiosa sua participação no filme percebe que Akfak é um louco impostor. Os habitantes, exaustos e decepcionados, expulsam o homem e seu ajudante da cidade.
Começa a cair uma chuva fortíssima como a anunciada por Akfak.

JUSTIFICATIVA:

A idéia de realizar o longa-metragem O anjo da história aconteceu em uma visita à cidade de Urubici, que fica na serra de Santa Catarina. Sua arquitetura, a maior parte datada dos anos 50, e os hábitos dos moradores inspiraram a história. Encontramos l um povo simples e trabalhador que possui uma educação voltada a preservação do meio ambiente e a solicitude com os viajantes que por lá chegam. A narrativa é ficcional, sendo assim, pretende criar uma atmosfera que demonstra o legitimo desejo da população tanto deste município, quanto o de qualquer outro do interior de nosso país, de serem inscritos no mapa cultural estadual e nacional, obtendo maior visibilidade.
As cidades interioranas catarinenses, de colonização italiana e alemã simbolizam muito bem a persistência destas comunidades que fazem de seu trabalho e dedicação à terra seus maiores bens e interesses. A população de Urubici é bastante hospitaleira e prestativa, o que favorece a execução das filmagens.
Por outro lado, enfatizamos a questão da condição do sujeito na pós-modernidade, seu não pertencimento a um lugar específico, seu nomadismo, solidão e loucura na figura do caixeiro viajante. Este personagem personifica o outro lado da polarização. Uma comunidade estruturada em valores tradicionais em confronto com um homem que traria o mundo exterior, a possibilidade de projeção da pequena cidade no cenário nacional.
O forasteiro traz, também, uma outra questão mais contemporânea à tona, a da premonição do fim dos tempos. Em meio aos problemas característicos das grandes metrópoles, em que o estranhamento, a diferença e a loucura tomam conta do imaginário caótico da civilização pós-moderna, este forasteiro chega a um lugar pacato, ainda distante destes males urbanos. Perturbado tanto pela sua solidão e questões relacionadas à sua loucura crescente, o forasteiro também passa a ter visões que anunciam o fim do mundo. Distante de poder ser visto como um cavaleiro do apocalipse, o nosso forasteiro é um personagem quixotesco, metáfora dos que ainda insistem em lutar contra os moinhos de vento.
Vendedor ambulante, representante comercial ou cineasta, nosso Akfak não chega a ter sua identidade totalmente revelada, papéis, estes de vendedor e criador, que se hibridizam (palavrinha da moda) na nossa rotina de realizadores no cinema brasileiro. Caberá à população da cidade dar a ele o papel de cineasta famoso, ele, no entanto, estaria apenas querendo registrar, através de sua câmera, aqueles que, para ele, seriam os últimos momentos da existência de vida sobre a terra.
O anjo da história, parte do conceito benjaminiano exposto na nona tese de Teses para uma nova filosofia da história. Na concepção de Walter Benjamim o anjo da história estaria sendo impelido por uma tempestade rumo a um futuro catastrófico, mas de certo modo ele, fragilmente, resistiria a ser tragado pelos ventos do futuro, mantendo seu olhar voltado ao passado. O tempo será tratado, no filme, de modo a propor um tempo imóvel em um presente fixo, petrificado, congelado diante de um futuro incerto que já se estabelece no presente.
Uma estética que enfatize a cristalização temporal em que a população se encontra deve ser buscada de modo a criar sempre o contraponto ao seu desejo de ser inscrita na contemporaneidade através da visibilidade que o cinema traria. Seu entendimento do que é visibilidade também é extemporâneo.
A ênfase nos figurinos será na composição dos perfis dos personagens. O barbeiro, ex-cantor lírico estará vestido como O barbeiro de Sevilha da ópera. Sua esposa, como uma personagem de ópera, uma Carmem, de Bizet. O prefeito, um intelectual dandi, também terá uma roupa característica, estará vestido formalmente, mas com uns toques da elegância de um Salvador Dali. A beata estará trajando um clássico vestido anos 50, cabelo e maquiagem acompanhando. E assim por diante. A fotografia colorida trabalhará as cenas dos sonhos, delírios de Akfak, como pinturas. A principio as imagens em suspensão de movimento darão a impressão de se tratarem de pinturas. Filtros especiais e tratamento de luz serão utilizados com este propósito. As imagens receberão tratamento semelhante ao utilizado em Taurus, de Sukorov. A loucura de Akfak como a especificidade do cinema em trazer em si a sincronicidade de vários tempos que coabitam o espaço tempo da linguagem cinematográfica. O restante do filme terá este efeito, porém amenizado, um pouco mais nítido, com uma imagem-tempo menos esgarçada, propondo uma continuidade estética, porém com uma sutil diferenciação, podendo ser interpretada como descontinuidade, interrupção, falha, resto ou erro, ou etc.
O tom do filme terá a dramaticidade do patético, porém o peso da seriedade das questões levantadas por Akfak, o eminente fim do mundo, serão amenizadas por momentos de comédia dividida em momentos de atuação da personagem de Samsa, principalmente, funcionando como contraponto ao seu mestre Akfak.