Corpo Presente
SINOPSE:
Na sala de jantar está exposto o corpo do morto dentro de luxuoso caixão sobre a mesa. Atrás há, sobre o bufé, peças que compõem o espólio do falecido. A viúva, sentada na cadeira da cabeceira da mesa, recebe os cumprimentos dos que chegam. Os parentes e amigos do falecido vão chegando e comentando sobre a herança. O tabelião chega e procede à leitura do testamento. À medida que ele designa cada um dos objetos este é iluminado por uma luz de palco : e tal objeto vai para (Rufar dos tambores) fulana ou fulano de tal. A fulana ou fulano é sempre pega ou pego de surpresa por estar esperando outra coisa, ou por não estar esperando nada, ou por compreender porque ganhou tal objeto. Após isto o objeto volta para onde ele estava quando houve algo representativo na vida do morto relacionado à pessoa e/ou ao tal objeto. O foco principal que a princípio é o objeto vai sendo redimensionado e sua relação tanto com o contexto histórico em que eles reaparecem na trama tanto quanto com o dos personagens envolvidos é narrada de modo a criar um vínculo estreito com a experiência de cada espectador. Ao final o único foco é o corpo sobre a mesa, dentro do caixão, inerte, parado, ausência de vida. FIM.
JUSTIFICATIVA:
A trajetória de uma família aristocrática, desde os idos dos anos 50 até a era Collor, conta a história do passado recente brasileiro através do ponto de vista dos membros desta família e de seus empregados. A história recente de nosso país é meu objeto de análise, pesquisa e transposição para a linguagem cinematográfica visando resgatar um passado próximo que tanto influi sobre a situação política, econômica e social contemporânea. Hábitos, atitudes, gestos, atos e omissões de duas classes emblemáticas do jogo de poder configuram o que permanece e o que pode ainda ser questionado hoje rumo a uma mudança que se faz necessária dos rumos de nosso país.
ABORDAGEM DO TEMA:
Cada uma das histórias e pontos de vistas diferenciados de cada um dos personagens será evidenciado na trama através do objeto que lhes é legado em testamento pelo patriarca da família. Os objetos contarão as histórias dos personagens. Flashbacks em tempos distintos cronologicamente transportarão o espectador para épocas emblemáticas da história de nosso país onde o objeto legado servirá de metáfora ao acontecimento e exibirá a personalidade do membro da família enfocado através da correspondência que este estabelece tanto em relação ao objeto quanto ao momento histórico em que ele estará circunscrito. Deste modo pretendo enfatizar tanto a escrita da história através do narrar cinematográfico quanto através da construção narrativa esboçar uma multiplicidade de pontos de vista, conferindo ao filme uma leitura plurisignificante, redimensionando, inclusive, o papel que cada um dos espectadores teve e tem como agente da história na construção de uma representação de Brasil. Este papel pretende ser evidenciado não só enquanto estabelecimento de um caráter representacional de cada um na narrativa da história de nosso país quanto como possibilidade de chamado a uma efetiva participação de todos e cada um de nós na construção e transformação desta história. Evidenciando que só não há opção com a morte, a narrativa de Corpo Presente espera poder contribuir para resssuscitar em todos e em cada um de nós uma pulsão de vida que nos torne agentes transformadores da realidade e não meros espectadores passivos.